domingo, 8 de janeiro de 2017

qu ando abismo

Eu, quando abismo, deitei meu sono sobre os ombros largos da loucura... claridade infida que cegou.virei do avesso e no escuro acalento de meus dias sós, me debrucei sobre os fantasmas que ocupam a mim. Eu vi passado dizer presente, agora o que fazer, que foi?! Trêmulas as mãos sobre o peito cantavam uma reza-abraço. Era chuva de pássaro, era jardim, era silêncio, era gira... afago, som de vento na fresta da janela. Eu, quando abismo, deixei cair o ponteiro do relógio.
Vinícius de Moraes na voz de Maria Bethania.
POÉTICA
De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.



Foto: Débora Flor

domingo, 11 de maio de 2014

Diálogo

A língua clitoriosamente oscila pelos lábios que se abrem numa boca cheia de dentes e fome.

Quem come?!


Acasos maternos...


Filha única de um útero fraco que durou até os sessenta e pouco, a terceira de um ou dois abortos, vingou, nasceu (respiro). Seus olhos azuis ou verdes cor de mar no interior de uma cidade banhada pela água barrenta, os olhos quase escureceram numa queda do segundo andar ou dentro de um poço, não lembro, sobreviveu... (choro). Com o tempo as fibras musculares do útero fortaleceram, veio um, veio, dois, três, quatro... Não tinha televisão pra ver novela que por longos anos ela vai amar. 
Escassez de água que às vezes se dava, fazia a senhora do interior do Mosqueiro ir ao vizinho carregar baldes, certo dia um caminho desavisado de limbo escorregou a barriga embuchada, ela morreu afogada em litros de sangue que jorravam dentre as pernas, por pouco tempo, logo a velha com seu tato calejado viu por dentro do umbigo corações batendo, (abro os olhos). Foi o sexto ou sétimo de uns doze, alguns de cabeça, outros pelas pernas, outros pela bunda, ela... (busco peito), um milagre de Nossa Senhora de Nazaré, ventre grande que guarda as filhas-mães que partem, filha-mãe que logo filha já era mãe. 
No caminho da corda foram muitos os encontros, quase um amor lhe deu filhos brancos ou pardos, como a primeira que veio, mas com cabelo bonito de ver nas suas voltas redondas do nariz e da boca, primeiro acaso. Os quatorze dias contados a risca entre cinco vai e cinco que vem, às vezes se esquecia do sábado ou do domingo, a distância fálica de um oceano, o longo ano logo encontrou a escolha da partida... (mamo).
Segundo acaso, o inverno e a saudade necessitavam de abraços que duraram longos duzentos e setenta dias e algumas doze horas de caminhada, escadas, agachamentos, dilatações, contrações na normalidade do calor do verão (choro)... Ao atravessar de voltas o oceano, o inesperado iceberg, que levado para o calor do Rio 40º derreteu, mas o que fez derreter mesmo foi o gonadotrofina coriônica, lactogênio placentário, melanotrôfico, aldosterona, progesterona, estrogênio e em silêncio veio a vitória cercada de mãos e luzes, terceiro acaso...  

Nasceu por acasos pela terceira, quarta ou quinta vez minha mãe (nascemos). 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

CURIMBÓ*

Curimbó é som, forma, cheiro, cor, vontade, vontade que chega pela pele, abrindo os poros, arrepiando os pelos; tem algo que desce pela espinha dorsal e pára no quadril.
O movimento quase que involuntário que os quadris marcam tem sua origem nos pés que enraízam no chão e compõe a marcação indígena enquanto os quadris negros movem em infinita pulsação.
Tem um ritmo que não sei qual é, tem um fluxo interno que brota desde o chão subindo por todo o corpo fazendo a cabeça girar, girar; gira corpo inteiro no seu eixo e ao redor, não é para o outro, é com os outros que a vibração se dá, então todos suados são acometidos por uma série de desejos que ficam no ar.


*texto escrito durante/para o processo de criação do espetáculo FADER da Companhia de Investigação Cênica, coreografado por Maya Carrol

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Corpo que?

Olhos fecham por alguns segundos, na finita certeza do encontro que cambaleia em sua embriaguez.
Cílios trêmulos caem perto da boca, que desagua em pensamentos de si, dúbios!
Dedilhar em contratempo pelas costas, refaz em dois - de mil pelos se arrepiam.
Pés firmes deslizam pelo sal que escorre o chão - curam certezas.
Há sons que despelam por debaixo da carne, cheiro.
Queixo que aponta para o umbigo (fundo e obscuro), um passo adiante no tempo do futuro que logo é presente...
Desembrulho o papel do estômago, tiro laços dos pulmões e o ar invade o cérebro, ressoam batidas descompassadas.



Marina Trindade

quarta-feira, 20 de novembro de 2013